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Quarta-feira, Setembro 17, 2008
Enquanto Shigure pagava o taxista, depois de ajudá-la a sair do carro, Tomoe levantou o rosto, observando a fachada colorida do lugar onde Minamoto a decidira levar. Era absurdamente familiar. Um karaokê. Ele a trouxera a um karaokê! Ela olhou para o professor de astronomia com um canto dos olhos, entre o curiosa e o temorosa sobre o que exatamente ele estava planejando.
Ambos já haviam ido tantas e tantas vezes em lugares como aquele que se tornara até uma espécie de passeio rotineiro dos dois. Apesar de Shigure cantar a maior parte do tempo, e Tomoe, algumas vezes, quase se ver praticamente empurrada para cima do palco, ela apreciava o programa.
Exatamente pela familiaridade gritante da situação é que ela não conseguia imagina o que poderia acontecer de diferente das vezes anteriores.
Shigure respirou fundo, observando o prédio diante de si. Durante a tarde, eles tinham conseguido mais que manter uma trégua, sentir-se realmente à vontade um ao lado do outro, como se nada de estranho tivesse acontecido entre eles.
Agora, contudo, era hora de quebrar um pouco essa placidez e começar a colocar as coisas em pratos limpos. Ele devia isso a Tomoe.
- Eu não tenho certeza se não aconteceu antes disso... Mas a primeira vez que eu enxerguei você de verdade, Tomoe, foi quando fomos ao karaokê em Atami. - ele murmurou, sem olhar para ela, encarando o neón que piscava a sua frente - Naquela noite em que você se embebedou e eu cuidei de você quando voltamos ao hotel.
Tomoe piscou os olhos, surpresa com aquela revelação. Ela não se lembrava de muitos dos detalhes daquela noite, o saquê acabara por turvar grande parte das lembranças da ocasião.
- Eu... eu não imaginava... - ela balbuciou - Você não demonstrou nada que me fizesse achar que...
Ele suspirou.
- Eu deveria ter seguido meus primeiros instintos aquela noite e beijado você. Especialmente depois de você ter se declarado. - ele abaixou a cabeça - Mas eu não tinha certeza de qual seria a sua reação quando o efeito do saquê passasse. E eu não queria arriscar a sua amizade por algo que eu não tinha certeza se podia dar certo. Mesmo hoje, Tomoe, eu tenho medo do que estou apostando. - dessa feita, ele se virou para ela, os olhos escuros encarando-a com uma seriedade que ela não estava acostumada - Estou apostando todas as minhas fichas na possibilidade de você poder me perdoar. E não faço idéia do que vou fazer se você se afastar de mim, Tomoe.
- Eu... eu... - a vidente simplesmente não sabia o que responder, não apenas pela quantidade de revelações que Shigure estava lhe despejando em tão pouco tempo, mas também pelo modo surreal que aquela situação lhe parecia.
Era como se, repentinamente, toda a história dela e de Minamoto ganhasse uma nova perspectiva, como se ela estivesse sendo reescrita diante dos olhos de Tomoe de uma maneira que ela jamais concebera. Ela nunca, nunca pôde imaginar que seus sentimentos eram correspondidos, ainda que da maneira estranhamente deturpada que Shigure lhe indicava.
- Você quis me beijar? Eu me declarei? - ela perguntou, sentindo-se cada vez mais confusa, apesar de também se sentir emocionada com a declaração que ele acabara de fazer.
Shigure assentiu.
- Eu sabia que se ficasse com você naquela época, eu acabaria estragando tudo. Não sei se amadureci o suficiente para considerar que não vá estragar agora. - ele deu de ombros - Mas eu não compreendia muito bem o quanto gostava de você. - ele sorriu novamente - Eu precisei que Rika-chan me abrisse os olhos.
Tomoe sorriu. Ela conhecia Shigure bem demais para saber o quão sincero ele estava sendo, o quão difícil estava sendo para ele se abrir e se expor daquele modo. Compreendia exatamente o verdadeiro peso daquelas palavras.
- Minha mãe dizia que as coisas acontecem na hora em que devem acontecer - ela aumentou o sorriso.
Ele sorriu em resposta, antes de oferecer a mão.
- Vamos entrar?
Ela balançou a cabeça afirmativamente e, alguns minutos depois, eles estavam confortavelmente instalados numa mesa não muito longe do palco, fazendo seus pedidos ao garçom. Quando ficaram sozinhos, novamente ele se voltou para ela.
- O que você quer cantar?
- Acho melhor você ir primeiro, para eu criar coragem - ela respondeu, vermelha. Mesmo depois de todos esses anos, ela ainda precisava do incentivo de Shigure para poder subir ao palco.
Shigure se levantou, o sorriso brincalhão com que costumava brindá-la aparecendo novamente, dirigindo-se então para o palco. Ela o observou trocar algumas palavras com o rapaz do som, antes de ele terminar de subir, postando-se diante do microfone.
Os primeiros acordes de uma canção soaram e ela fechou os olhos ao perceber o que ele estava planejando cantar.
To really love a woman,
To understand her,
You've got to know her deep inside ...
Hear every thought,
See every dream,
And give her wings when she wants to fly.
Then when you find yourself lying helpless in her arms ...
Não podia haver nada mais brega, mais ridículo ou mais romântico do que aquilo para cantar. A voz ligeiramente rouca de Shigure combinava bem com os acordes quase sensuais da música, fazendo-a sentir pequenos calafrios na coluna.
No palco, ele sorriu, tirando o microfone do suporte e começando um misto de passeio e coreografia. E, quando ele começou a descer as escadas, ela percebeu que estava realmente perdida.
When you love a woman,
You tell her that she's really wanted.
When you love a woman,
You tell her that she's the one.
She needs somebody, to tell her that it's gonna last forever.
So tell me have you ever really ... really, really ever loved a woman?
Shigure caminhou lentamente até ela, os olhos fixos nos dela, o sorriso divertido nos olhos. Algumas outras mulheres pareciam achar a cena toda muito interessante e ela o observou piscar o olho algumas vezes para as "fãs" que apareciam em seu caminho.
Assim que ele chegou à mesa, Tomoe o recebeu com um sorriso. Era estranho como as coisas estavam tão diferentes, mas ao mesmo tempo tão familiares.
- Eu ainda não sei o que vou fazer com você. - ela falou, em um tom divertido.
- Pelo visto você gostou. - ele respondeu, sorrindo de orelha a orelha - E, quanto ao seu problema, tenho uma ou duas sugestões...
- Shigure! - Tomoe quase gritou, sentindo o rosto se esquentar em brasas.
Ele riu, meneando a cabeça, e entregou o microfone para ela.
- Sua vez.
Ela caminhou, cabisbaixa, sentindo as orelhas esquentarem ante a música que acabara decidindo escolher. Subiu no palco, murmurando baixinho para o músico o seu pedido.
Quando os primeiros acordes começaram a entoar pelo lugar, Shigure quase abriu a boca, surpreso ao reconhecer a melodia. O espanto deu lugar à uma alegria quase incontida, e, com enlevo, ele observava Tomoe, completamente vermelha, olhando para os próprios pés, enquanto começava a cantar:
There's a somebody
I'm longing to see
I hope that he
Turns out to be
Someone who' ll watch over me
Como se fosse possível, o sorriso dele se tornou ainda mais amplo, compreendendo que aquele era a maneira dela expor como estava realmente se sentindo e de lhe dizer que ainda havia esperanças para os dois.
Por Criatura do Subsolo ** Resmungue aqui:
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